Como Pai

CHAMADAS A SER COMO O PAI

 Introdução: Lc. 15:20 a 32
Até aqui nós temos pensado na história de dois irmãos e sua relação com o Pai. Os dois filhos igualmente perdidos em relação ao significado da Presença do Pai. Um busca longe seu suprimento, o outro vive perto, mas não desfruta da Presença do Pai como filho,  e não se supre dela.
Ao lermos o livro “A Volta do Filho Pródigo” de Henri Nouwen, meditando na prábola de Jesus e observando a pintura de Rembrandt,  vamos nos identificando, ora com um personagem, ora com outro:  “acho que sou como o filho mais novo, ou como o mais velho, ou então, acho que minha posição é a de Pai”. Porém, o único chamado de Deus pra nós nessa história é o de ser como o Pai.
Nós nos identificamos com os filhos na nossa deficiência, na nossa visão turva do amor do Pai – ora buscando suprimento das nossas carências longe de casa, ora vivendo em casa como servo e não como filho.
Mas o chamado de Deus para sua vida e para minha vida é viver na Presença do Pai e a ser como o Pai.  A Presença do Pai aqui é o centro da história. O nosso chamado é estar nesse lugar – na Presença, e a nos tornar como Ele.

Vamos pensar em três aspectos do chamado a estar na Presença do Pai e a ser como o Pai:

  1. O movimento rumo à Presença envolve lamento:

O lamento, segundo os valores do reino de Deus, não tem uma conotação de um choro, um sofrimento em si mesmo, mas a bíblia fala de um lamento como algo que aponta para a vida, para a esperança do novo.  Tiago 4.9 diz: “Senti as vossas misérias, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a  vossa alegria em tristeza.”
Movimento é deixar um lugar e ir para outro. E, apenas quando lamentamos nossa miséria longe da Presença, é que somos movidos a voltar a ela, deixando aquele lugar para o qual enveredamos quando perdemos o foco.
Foi assim que o filho mais moço se voltou para a Presença do Pai, contemplando sua miséria, e se lembrando da abundância que tinha na casa do Pai, só então ele se dispôs – “Irei ter com o meu pai, e lhe direi: pequei.”
Percebemos que estamos longe, quando nos deparamos com nossa miséria, almejando a comida dos porcos, na nossa fome; quando vemos nossa carência, tentando nos alimentar de migalhas de aprovação, de reconhecimento; quando identificamos nossas atitudes pedintes, implorando suprimento em quem não tem pra dar, ou seja, buscando suprimento fora da Presença.
Quando percebemos essa condição, e a lamentamos profundamente, haverá um movimento na nossa vida – “Não precisamos disso, na casa do nosso Pai tem abundância!
Essa é a posição do filho mais novo, e sair desse lugar requer uma escolha consciente, uma atitude.
Da mesma forma, só saímos da posição do filho mais velho da história, quando deparamos com a miséria de nossa alma, ao depararmos com o nosso coração entristecido e enraivecido, ainda que o momento seja de festa. O ruído de festa incomoda porque o ressentimento impossibilita o coração de ser grato e se alegrar.
Olhar para essa condição da alma, deve nos levar ao lamento, porque se formos indiferentes àquilo que perdeu a vida em nós, no irmão e na igreja;  ou seja, se não percebermos o  morto e lamentarmos a morte, não celebraremos a vida quando ela vier.  “Alegrai-vos, porque este meu filho estava morto e reviveu”
Henri fala que não há outro caminho rumo à paternidade que não passe por lamentos, muitas mortes e muita solidão.
O lamento é a vitória sobre a indiferença.

 Livres para amar segundo o coração do Pai:

Como o coração de Deus ama?
Jesus disse: “Sede vós perfeitos como perfeito é vosso Pai celeste…amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.  Sede perfeitos como Ele é, amai como Ele ama. Como falar sobre isso?  Livres para amar segundo o coração do Pai?
O segredo está “em ser livre para”, e essa liberdade só ocorre na presença, juntinho de Deus, ouvindo Aquele que me fala: “Tu és minha filha amada, em ti tenho prazer.”
Para amar segundo Deus, precisamos ser livres de dois embaraços:

  • nossa necessidade de provar quem somos
  • nosso conceito equivocado de merecimento

Só sou livre para amar quando minha identidade é resolvida em Deus – Quem sou? Sou filha, sou amada, Ele tem prazer em mim, me chama a se alegrar com Ele, pois tudo o que é dele é meu.
É isso que o Pai tentava que o Filho mais velho entendesse – você é meu filho, tudo que é meu é teu, vamos celebrar!  Mas ele não pôde porque se percebia bem como trabalhador, mas não como filho para o qual tinha lugar na festa.
Às vezes nos portamos diante uns dos outros como esses dois irmãos: Isso é meu, quero a minha parte, ou, quem ele pensa que é, não vou a esta festa!
Nossa identidade não é formada a partir de comparações com outros. Ele me amou primeiro – primeiro de tudo, antes de fazermos coisas aprováveis, elogiáveis. Ele nos teceu no ventre e nos amou antes, antes de ninguém decidir nada a nosso respeito. Foi assim que Deus nos amou. Só podemos amar como Ele nos amou, porque só podemos repartir daquilo que recebemos.
Para tanto precisamos nos deixar ser assim amadas acolhidas por Ele.
Em segundo lugar, para amar segundo Deus precisamos nos desembaraçar da noção equivocada de mérito e da condição de trabalhador.
Graça é um conceito do Reino, que transcende nosso entendimento, porque a ideia de fazer por merecer está incutida em nós, estava nos fariseus.
Na história o filho mais velho argumenta que ele muito trabalhou, e o filho mais novo não entende melhor que isso, tudo o que ele conseguiu pensar ao voltar para o Pai foi:  “serei como um de seus trabalhadores.”
Essa religiosidade é uma barreira para amarmos incondicionalmente e para acolhermos  pessoas com a mesma compaixão com que fomos acolhidos. Henri fala que só seremos livres para ser compassivo quando paramos de avaliar o outro. A compaixão não coexiste com o julgamento. As nossas constantes avaliações do outro nos limita nesse ministério de acolhimento.
E ele diz: “Como é difícil aceitar o amor incondicional do Pai!  Mas esse é o único caminho que me capacita a tornar como Ele, o único caminho para sermos livres para amar com o coração do Pai. Para chegarmos a essa paternidade que acolhe vidas não apenas bebês, mas pessoas voltando de uma vida de desperdício fora da Presença de Deus, sem mérito algum, mas voltando… e acolhê-las, vendo nisso motivo de festa. É o morto que reviveu.
Amar conforme o coração de Deus traz vitória sobre o medo.

 Chamados a celebrar:
 A celebração faz parte do Reino. Jesus quando fala do Reino, tem sempre um banquete, uma festa, e ele diz; “Alegrai-vos comigo.”
Quando andamos na presença de Deus não só lamentamos os lamentos de Deus como também celebramos as alegrias de Deus.
Na parábola, o Pai fala para o filho mais velho: “este teu irmão estava morto, e reviveu”. Mas o filho mais velho não pode celebrar porque ele não percebeu o ‘morto’.  Ele via a história com outros olhos – para ele o irmão era apenas o desperdiçador que voltou. Ele não chorou com o pai a perda do irmão. Ele não lamentou com o Pai a ausência do irmão.
“Alegrai-vos comigo” –  é o convite do Pai.  “O que alegra o coração de Deus?”
Somos chamados no dia a dia a perceber as alegrias de Deus e celebrar com Ele. Essa é uma escolha diária. E os motivos são imperceptíveis a muitos… um filho que voltou, um coração que deu sinais de mudanças,  algo perdido que foi achado. . .
São alegrias tão secretas, que Henri as compara com o “tocador de flauta” na pintura de Rembrandt que retrata a parábola da “Volta do Filho Pródigo”.
Porém, um coração ressentido não percebe os motivos de celebração. Um coração amargurado não celebra, não há ali lugar para gratidão.
Rembrandt retrata na pintura um filho maltrapilho que volta, um pai que acolhe, um filho indignado, alguns observadores, mas há também um sinal de festa. A indicação da festa na pintura é a figura de música no ambiente, uma figura quase imperceptível. Alguém viu o tocador de flauta na pintura? Precisou muita observação?  Sensibilidade?  Olhos para ver?  Tempo para perceber?
Assim só ficando ligado no coração do Pai, vamos perceber o que alegra Deus, e vamos nos alegrar com Ele e uns com os outros. Celebrar é um hábito que precisa ser cultivado.
Quem celebra tem a vitória sobre o ressentimento.

 Assim, como filhas de Deus há um lugar onde devemos estar, e este lugar é na Presença do Pai. E na Presença há vitória sobre a indiferença, sobre o medo e sobre o ressentimento, sendo, portanto, um lugar de quebrantamento, de  liberdade para amar e de celebrar.
E esse é o lugar de descanso.  É o lugar para o qual fomos criadas para estar.

Dione Mendes  (do livro A Volta do Filho Pródigo – Henri Nouwen)

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