Filho mais velho

O FILHO MAIS VELHO
Os dois filhos estavam fora de casa: o mais novo aventurando-se pra longe de seu habitat. O mais velho, apesar de ter ficado em casa, estava no “campo” = lugar de serviço pela troca (eu faço e você me paga pelo que fiz) – relação antagônica pra quem é o filho do dono de tudo.
O filho mais velho afirma que o tempo desse serviço já era de três anos. Ele trabalhou e não recebeu nada em troca. Esta foi a base da sua queixa.
Fiquei pensando que se nesses três anos ele se tornou um “empregado”; quem ele era antes nessa família? Quando e porque ele deixou de ser “filho” para se tornar “empregado”? O que teria acontecido em seu coração que ele preferiu servir o pai no “campo” e não na “casa”? Porque ele trocou a relação com o pai pela relação com os empregados? Que tipo de pessoas eram seus amigos?
Na declaração do filho mais velho estão envolvidos, além dele, o campo, o tempo, o novilho, os amigos, a casa e o pai. Pensemos um pouco sobre o perfil de alguns.
Perfil do Campo: lugar de desenvolver atividades braçais e rústicas. Lugar de lidar com uma terra dura que precisava ser arada, cultivada, plantada e depois ser colhida toda a safra. Trabalho pesado, solitário, de muita cobrança por resultados.
Perfil da Casa: lugar de vivência (ele + o pai e o irmão), de experiência relacional, festa, alegria, comida, limpeza, aceitação, perdão, expectativa e gratidão a Deus. Lugar de crescimento, responsabilidade e maturidade efetiva.
Novilho Cevado: oferta pacífica de acordo Levítico 3:1-11. Era uma oferta sacrificial de gado ou rebanho; macho ou fêmea sem defeito, que remetia a ações de Graças podendo ter vários significados:
1. Geralmente uma expressão de paz e comunhão entre o ofertante e Deus, culminando numa refeição comunitária,
2. Oferta de gratidão para expressar agradecimento por uma benção recuperada ou livramento;
3. Oferta por voto para expressar gratidão por uma benção ou dádiva recebida quando um voto acompanhou a petição;
4. Oferta voluntária para expressar gratidão a Deus sem olhar para nenhuma benção ou livramento específico.
O Pai e o Filho mais Velho: de acordo com a pintura o filho mais velho se parece fisicamente (barba) e nas vestimentas com o pai. Esta é a aparência externa. Internamente porem, são muito diferentes. Veja o quadro abaixo:
Pai Filho mais Velho
Inclina e toca o outro filho que retorna Permanece ereto diante do irmão que voltou
A capa é acolhedora e larga significando proteção A capa cai rente ao chão
Suas mãos estão abertas e alcançam o ombro do filho Suas mãos permanecem entrelaçadas junto ao peito
A luz do rosto ilumina o restante do corpo A luz é fria e contrita – revela escuridão e sombras
É livre para abençoar É infeliz e está cativo do sentimento de inveja

A parábola revela, na pessoa do filho mais velho, a grande luta espiritual e as difíceis escolhas que essa luta exige. A luta interior definida pelo autor como “Chama interior da Alma” diz respeito à decisão de aceitar ou não o amor que lhe é oferecido. Esta decisão é a conversão mais difícil de obter – aquele que permanece em casa, porém, envolvido em ressentimento, em distanciamento e solidão para com o pai.
Quando a obediência e o dever se tornam um peso, o trabalho se torna escravidão. O Filho mais Velho perdera a liberdade de viver a própria vida na casa de seu pai. Isso faz dele um homem zangado e raivoso, amargurado e ressentido – ele julga e condena. O problema maior desse filho estava nos seus sentimentos: ele não partilha da alegria pelo retorno do irmão – está envolvido com sua própria revolta que não consegue se permitir alegrar-se pelo motivo que alegra o seu pai.
Todos nós temos que lidar contra o ressentimento. Todos nós temos que lidar com o direito que achamos ter para julgar e condenar. Todos nós temos que deixar a raiva contida na luta contra evitar o pecado. O desafio do Filho mais Velho era voltar a ser livre, a ser mais espontâneo; mais brincalhão e alegre; menos pesado nas suas exigências e posturas.
A queixa do Filho mais Velho vem do seu coração que achava que não recebera do Pai o que era devido: isso gerou nele atitude de desconfiança, lamúria e mais afastamento da casa do Pai – sentia-se excluído mesmo podendo entrar na casa. O Filho mais Velho não concordava com a forma livre do pai de amar o outro filho. Sentia-se magoado intimamente.
A Cura do Filho mais Velho depende dele assumir uma escolha: se vai permanecer nas trevas das queixas ou se vai penetrar na luz do amor do Pai. Um amor que não depende do nosso arrependimento ou de nossas mudanças internas ou externas. O único desejo de Deus é fazer com que voltemos para casa.
Nesse processo é preciso abandonar a comparação, a rivalidade e a competição. Deixar as sombras e entrar na luz e encontrar o Amor livre, alegre e sem paralelos. Nesse amor todas as pessoas são únicas e inteiramente amadas. Deixar de ser o estranho na casa do Pai. Praticar diariamente a confiança e a gratidão.
A parábola me ensina que devo confiar que o Pai, Deus, me ama e me quer de volta em casa para o amor. Que devo manter uma atitude de reconhecer que tudo o que sou e tenho é dado a mim como um dom do amor, um dom para ser comemorado com alegria.
Uma declaração que explode em liberdade é a declaração do Pai a meu respeito: “tudo o que Eu tenho é teu”!
Pense nisso você também!

Lucinete Oliveira (do livro A Volta do Filho Pródigo – Henri Nouwen)

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