Um convite à vida espiritual

Palavra ministrada por Joana D’arc no 1o.encontro do site “Encontros e Caminhos”
(baseada nos escritos de Henry Nouwen do livro “Renovando todas as coisas”)

“Qual será a nossa verdadeira vocação nesta vida? Onde poderemos encontrar paz de espírito para ouvir a voz de Deus que nos chama? Quem poderá nos guiar através do íntimo labirinto de nossas ideias, emoções e sentimentos?”
Para Henry essas e muitas outras perguntas semelhantes expressam um profundo desejo de viver uma espiritual.
Mas o é que vida espiritual e como vivê-la?
Isabelle Ludovicodiz: “…entendo espiritualidade como a busca de maior intimidade e amizade com Deus.”
Para Elben L. Cesar espiritualidade é ao mesmo tempo complicado e simples. Ele a define: “…a espiritualidade cristã consiste simplesmente num relacionamento sério, coerente, profundo, progressivo e permanente da criatura com o Criador, por meio da graça manifestada na pessoa de Jesus Cristo e da ação conscientizadora e fortalecedora do Espírito Santo nos dias atuais”. E também é enfático quando diz:”…o que gera a espiritualidade mais genuína, mais bela, mais santa, mais profunda, mais realizadora e mais agradável é o relacionamento da alma humana com Deus com base no amor recíproco.”
Já para o pastor e escritor Ricardo Barbosa a espiritualidade da cultura moderna mudou o foco da espiritualidade cristã. Para Ricardo “o propósito da espiritualidade cristã é nosso crescimento em direção a Cristo – em outras palavras, sermos conformados â imagem de Jesus Cristo. Não se trata de ajustamento sociológico ou psicológico, de sentir-se bem emocional ou socialmente, mas de um processo de crescimento e transformação.”
O teólogo Russel Sheddafirma que o “ amor por nós mesmos dificilmente rende espaço para o amor de Deus” . E cita as palavras deA.W.Tozer: “A razão pela qual muitos ainda estão atribulados (e vencidos), buscando, mas fazendo pouco progresso, é que ainda não chegaram ao fim de si mesmos.”Com isso, a espiritualidade se esvai, conclui Shedd. Porém em sua visão, explica Shedd, “ a espiritualidade deve unir o coração, a mente e mão, uma ideia amplamente encorajada na Palavra e mantida desde os tempos da igreja primitiva. Para ele as três dimensões da vida – o afeto, o pensamento e a ação -, se mantida em equilíbrio, conduzem a Igreja no caminho seguro do Senhor. Na opinião de Shedd, “será o amor, o fruto de Cristo em seu Corpo, que libertará a energia do Espírito e transformará a religiosidade vã em espiritualidade que agrada a Deus.
Para Henri “a vida espiritual não é uma vida anterior, posterior ou aquém da nossa experiência de cada dia. Ela só pode ser real quando é vivida em meio aos sofrimentos e às alegrias do aqui e agora.”
Em seu livro Henri afirma que nossa resignação em encarar a maneira pela qual se desenrola a nossa vida, nos impede de buscar ativamente a vida do Espírito.
Nossa primeira tarefa é dissipar o vago e obscuro sentimento de insatisfação e encarar com olho crítico a maneira pela qual estamos vivendo a nossa vida. Para Henri isto exige honestidade, coragem e confiança. Precisamos desmascarar com honestidade e ter coragem de confrontar as nossas inúmeras manobras auto-enganadoras. Precisamos ter confiança de que a nossa honestidade e a nossa coragem não nos levarão ao desespero, mas a um novo céu e a uma nova terra.
Para nortear seus leitores nesta caminhada Henri escolhe as palavras de Jesus registradas no livro de Mateus, no capítulo 6: “Não vos preocupeis; nem digais: o que comeremos? O que beberemos? O que vestiremos?… Vosso Pai celeste conhece todas as vossas necessidades. Buscai primeiro o reino de Deus e tudo o mais vos será dado.”
Com essas palavras, explica Henri,Jesus indica a possibilidade de uma vida sem preocupações, uma vida na qual todas as coisas vão se fazendo novas.
Muito mais do que as pessoas da época de Jesus, nós, da “era moderna”, podemos ser chamados de pessoas preocupadas. Mas como se manifestam atualmente as nossas preocupações?
Para Henri diariamente vivemos ocupados. Sentimos os nossos dias repletos de coisas por fazer, pessoas a encontrar, projetos por terminar, cartas por escrever, telefonemas por dar e compromissos por manter. Há uma incômoda sensação de tarefas inacabadas, promessas não cumpridas, propostas irrealizadas. Há sempre alguma coisa a mais de que deveríamos ter-nos lembrado, feito ou dito. Assim, embora muito ocupados, vivemos, sob a permanente impressão de que nunca realmente cumprimos com as nossas obrigações.
Henri afirma que viver ocupado tornou-se um símbolo de status. Ser ocupado e ser importante muitas vezes parece significar a mesma coisa. Sem uma ocupação, não apenas a nossa segurança econômica como também a nossa própria identidade ficam em perigo.
Porém, diz Henri, mais escravizantes do que nossas ocupações, são as nossas preocupações.
Na definição de Henri, estar preocupado significa preencher o nosso tempo e o nosso espaço antes de os vivermos. De maneira prática é uma mente cheia de “ses”.
Dizemos a nós mesmos: “ e se eu apanhar uma gripe? E se eu perder o emprego? E etc. Todos “ses” enchem as nossas cabeças com pensamentos ansiosos e nos levam a indagar o tempo todo sobre o que fazer e o que dizer caso possa acontecer alguma coisa no futuro.
Grande parte, se não a maioria, afirma Henri, dos nossos sofrimentos está ligada a essas preocupações. Possíveis mudanças de carreira, possíveis conflitos de família, possíveis doenças nos deixam ansiosos, amedrontados, desconfiados, nervosos e sombrios. Todos esses “possíveis” nos impedemde sentir uma verdadeira liberdade interior. Como estamos sempre nos preparando para eventualidades, só raramente confiamos plenamente no momento presente.
Para Henri estar ocupado, mas tambémpreocupado, é uma coisa muito estimulada pela nossa sociedade. Somos estimulados pela mídia através de apelos publicitários diários.
As nossas ocupações e preocupações preenchem até os limites a nossa vida exterior e interior. Elas, na opinião deHenri, impedem o Espírito de Deus de respirar livremente em nós e, assim, renovar as nossas vidas.
Sob as nossas vidas preocupadas passa-se alguma coisa mais, demonstra Henri, raramente nos sentimos de fato satisfeitos, em paz ou à vontade. Uma inquietante sensação de não-preenchimento transparece sob as nossas vidas repletas.
E refletindo sobre essa experiência, estar “farto” porém “não-saciado” Henri pode discernir vários sentimentos. Os mais significativos para ele são: o tédio, o ressentimento e a depressão.
O tédio é um sentimento de desligamento. Enquanto estamos ocupados com muitas coisas, nos indagamos se o que fazemos terá alguma importância real. Entediar-se, portanto, para Henri, não significa que não tenhamos nada que fazer, mas que questionamos o valor das coisas que estamos fazendo com tanto afã.O tédio muitas vezes está ligado ao ressentimento. Quando estamos ocupados, ainda que nos perguntemos se a nossa ocupação representa alguma coisa para alguém, sentimo-nos usados, manipulados e explorados com muita facilidade. Começamos a nos ver como vítimas. Então, um ódio surdo começa a se desenvolver. Esse ódio é o ressentimento.
Para Henri a depressão é o sentimento mais debilitante da nossa experiência de não-preenchimento (não-saciado). Quando começamos a sentir que a nossa presença não apenas faz pouca diferença como também que a nossa ausência poderá ser preferida, podemos facilmente nos deixar dominar por um invencível senso de culpa. Essa culpa não está ligada a nenhuma ação particular, mas à própria vida.
Hoje, afirma Henri, preocupar-se significa estar ocupado e preocupado com muitas coisas, ao mesmo tempo que nos sentimos entediados, ressentidos, deprimidos e muito solitários.
Para Henri, nem todos nós vivemos preocupados de modo extremo o tempo todo. Todavia, ele tem dúvida de que a experiência de estar “farto” e, entretanto, “não-saciado”, consiga tocar muitos de nós até certo ponto, em algum momento.
Em nosso mundo altamente tecnológico e competitivo, é difícil evitar completamente as forças que enchem o nosso espaço interior e exterior e que nos desligam dos nossos “eus” mais íntimos, dos seres humanos em nossa volta, e de nosso Deus.
Uma das características mais notáveis da preocupação, segundo Henri, é que ela fragmenta as nossas vidas. As múltiplas coisas por fazer, por pensar, por planejar, tudo isso nos divide e nos desconcentra. Elas nos levam a “estar em toda parte”, mas raramente em casa. Uma forma de expressar a crise espiritual do nosso tempo é dizer que a maioria de nós tem um endereço, mas nunca pode ser encontrado nele. O “tudo mais…” continua exigindo a nossa atenção. Leva-nos para tão longe de casa que finalmente chegamos a nos esquecer do nosso verdadeiro endereço, isto é, do lugar onde podemos ser encontrados.
Mas Jesus quer nos levar para o lugar ao qual pertencemos, afirmar Henri. O convite de Jesus para vivermos uma vida espiritual só pode ser ouvido quando nos dispomos a confessar com honestidade que levamos uma existência sem lar e preocupada em reconhecer os efeitos fragmentadores desse fato sobre a nossa vida diária. Só então pode desenvolver-se em nós o anseio pelo nosso verdadeiro lar.
Para Henri é desse anseio que Jesus fala quando diz: “Não vos preocupeis… Buscai primeiro o reino de Deus… e tudo o mais vos será dado.” Jesus não fala em mudança de atividades, em mudança de contatos, nem sequer em mudança de ritmo. Ele fala em mudança de coração, que torno tudo diferente, mesmo que todas as coisas continuem a parecer semelhantes. Esse é o sentido do “Buscai primeiro o reino de Deus… e tudo o mais vos será dado.” O que conta é onde colocamos o nosso coração. Quando estamos preocupados, o nosso coração está no lugar errado. Jesus nos pede que coloquemos o nosso coração no centro, onde todas as coisas se encaixam no lugar certo.
Que centro é esse? Para Henri, Jesus o denomina de reino de Deus, e diz mais, só quando compreendemos as palavras de Jesus como um chamado urgente para darmos prioridade à vida do Espírito de Deus é que conseguimos ver melhor o que está em jogo. Um coração voltado para o reino do Pai também é um coração voltado para a vida espiritual.
Henri conclui que voltar os nossos corações para o reino significa, fazer da vida do Espírito, dentro e entre nós, o centro de tudo o que pensamos, dizemos ou fazemos. Assim experimentaremos diariamente o renovar de todas coisas. Amém.
JOANA D’ARC FARIA

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