A Mulher de Ló

Gênesis 19: 16 a 26 e Lucas 17: 28 a 33
O primeiro texto traz vários personagens e entre eles traz uma mulher que não sabemos o nome: é a mulher de Ló.
Ouvimos falar poucas coisas sobre Ló, em poucos capítulos de Gênesis, depois em Lucas e em Pedro. Mas quando vamos ler sua história e de sua família, descobrimos que aparece por um longo período: desde antes do seu nascimento até o fim de sua vida. Nessa história acompanhamos várias situações: decisões questionáveis, relacionamentos silenciosos, nomes omissos – uma história carregada de significado.
Lendo o texto de Lucas, é interessante como Jesus durante a nossa vida nos convida a lembrar de algumas situações, mas a esquecer outras: “Lembrai-vos da mulher de Ló”. Mas quem é essa mulher da qual precisamos lembrar? Uma mulher que poderia ter sido uma das poucas sementes enviadas para uma terra nova para fazê-la melhor, porém ela não foi e ainda teve sua vida perpetuada numa terra que nunca mais produziu frutos.
Uma mulher, para nós, sem nome, vivia em Sodoma com a família, casada com Ló, tinha duas filhas que iam se casar, vivia no meio de um povo que pecava aos olhos de Deus. Uma mulher que um dia teve a sua cidade, a sua casa visitada por anjos e foi convidada a uma mudança, uma mudança de rumo, de lugar. Uma mulher convidada para um novo movimento, para a liberdade. Um convite embebido pela misericórdia de Deus – como são todos os Seus convites.
Na mulher os sentidos são bastante aguçados e isso pode ter colaborado para que a mulher de Ló olhasse para trás. No caso dela, vemos o olfato (ela sentiu o cheiro do que estava sendo queimado); audição (ela ouviu o barulho, os estrondos); a pele (ela sentiu o calor), a visão (ela usou para ter certeza). Ela não aceitou o fato de estar deixando para trás valores ou pessoas que ela julgava que lhe pertencia, ela estava perdendo o que para ela era precioso. Ele estava deixando aquele lugar chamado passado, mas o passado estava bem dentro dela.
E ainda que levada, arrastada pela misericórdia de Deus para outro lugar, ela olhou, mas infelizmente não para o que Deus estava requerendo, mas ela olhou para trás. Um olhar que a transformou sim, mas numa estátua sem vida. Ao invés de fazer o movimento proposto, ela ficou imóvel, ela dormiu seu sono de morte.
Não permita que os seus sentidos se aliem ao seu coração apegado ao passado, e levem você a pecar.
Hoje já temos experimentado o mesmo tempo em que Ló viveu. Temos vivido tempos difíceis. Tempo em que a maior tentação tem sido a de viver para si mesmo. A tentação do poupa-te: “poupa-te, afinal, você já fez demais, afinal você já ajudou demais”.
Quantas vezes já ao ler esse texto condenamos a mulher por ter olhado para trás: “Como ela pode olhar pra trás? Como ela pode achar que estava perdendo alguma coisa? Afinal, era uma cidade pecadora, não deveria ter nada que prestava.”
Mas quantas vezes também para nós é difícil abrir mão de algo, especialmente do passado. Algo ou alguém que eu sei que não deveria me agarrar, mas afinal, de alguma forma eu conheço, me é familiar, e esse “lugar conhecido”, esse passado aconchegante, tem suas vantagens, traz seus benefícios.
“A forma conhecida de viver pode não trazer os resultados que eu quero ou preciso para a minha vida, mas ela é conhecida.” e me dá uma sensação de segurança.
O texto nos conta que aquela mulher tinha uma família, ela se relacionava. Foi uma mulher que, sendo mãe, perdeu o privilégio do cuidar, do conhecer, acompanhar, instruir, casar suas filhas. Morreu antes, morreu porque cobiçou, pecou, não obedeceu. Morreu porque amou a própria vida, se poupando de entregá-la pela vida de outros, suas próprias filhas, seu marido, sua geração.
Morreu porque quis ficar com o passado e no passado. Passado é um lugar e um tempo que pode ser visitado, às vezes até deve, mas no momento certo.
É preciso coragem para rever nossa história. Há muitas fantasias e enganos na nossa cabeça em relação ao nosso passado. Alguém disse que “coragem é o medo que esteve de joelhos em oração”.
E diante disso, diante desses incômodos que a mulher de Ló nos leva a ter, eu sugiro aqui compromissos (o fruto que agrada a Deus, o fruto que Ele aceita, o fruto que alimenta, é o fruto do compromisso): Eu te convido: Comprometa-se.
• Em 1º lugar, comprometa-se em saber o seu nome, saber a sua identidade, quem você é: qual é o seu nome? Ou você tem se sentido uma mulher sem nome? É preciso saber o que o seu nome carrega por que no seu nome está a sua vocação. Do que você é chamada e como você é conhecida? Lá em casa, por exemplo, além de ser chamada de mãe pelo meu filho, às vezes eu sou chamada de chata. E, a princípio, eu ficava muito brava, eu me sentia desrespeitada. Mas fui percebendo que é um desrespeito que pode estar trazendo com ele uma realidade a respeito de quem eu sou; uma realidade que não é boa e que precisa ser mudada. Uma realidade vinda da boca de alguém que está vivendo no “mundo pequeno”, mas que eu preciso ir lá para ouvir e saber ler o que isso me conta não só a respeito do meu filho, mas, principalmente o que conta de mim mesma, de quem eu sou.
• Em 2º lugar, comprometa-se a se posicionar em relação ao seu passado: é tempo da misericórdia do Senhor sobre a nossa vida, como mulheres que querem ser frutíferas nas nossas mais diversas funções. E, por isso, o Senhor nos convida a um posicionamento em relação ao passado, em relação às nossas perdas, em relação à nossa “Sodoma”. Deixa Deus tratar o seu passado, para que assim o presente seja de coragem e fé e o futuro de paz, segurança e cumprimento do propósito de Deus.
• Em 3º lugar, comprometa-se a se posicionar em relação ao presente: Com quem ando? Qual o ritmo dos meus passos? Andar junto, conhecer no caminho, cuidar, gastar a vida se permitindo passear, participar e andar no ritmo do “mundo pequeno”, quando necessário. Temos “outros mundos” ao nosso redor que esperam nosso ouvir atento, nosso olhar diferenciado, nossa mão amorosa e firme e nossa palavra temperada. Sentidos que podem produzir frutos que alimentam.
• Em 4º lugar, comprometa-se a ouvir a Deus e de Deus: gaste tempo na presença d’Ele, conheça a Deus e Sua Palavra, silencie a sua alma (como ela fala!), silencie e ouça, para só então orar como resposta ao Deus que fala. Sossegue seu coração na presença d’Ele, desenvolva uma relação de intimidade com Ele. Conheça a Deus o bastante para que, quando movido pela Sua misericórdia, Ele te convidar para sair, mesmo que apressadamente, para algum lugar, você não pense em resistir, em se apegar, em não ir.
Deus sempre quer nos levar a um lugar seguro. Deus sempre quer nos levar a um lugar onde frutos são produzidos. Aquela mulher morreu antes de descer até Zoar (lugar pequeno), e antes de subir a montanha (sugestão dos anjos), ela morreu antes de conhecer o processo de Deus na vida dela. Como essa história poderia ter sido diferente…
Lembrai-vos da mulher de Ló, para que você, que hoje tem vida, possa ter a oportunidade de ter uma história diferente, uma história frutífera.
Marisa Duarte

(Palavra ministrada no Encontro de Mulheres em Santana do Parnaíba/SP – 2012)

http://www.encontrosecaminhos.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s